Escolhendo a profissão

No bom restaurante não há pratos ruins: todos os pratos são bons. Você terá que escolher um deles, que pareça melhor, mas isso obriga a abandonar todos os outros, que também são gostosos. A alternativa do restaurante "por quilo" existe, mas, em geral, se pega um pouco de tudo e a mistura final fica com gosto de brócolis...
Para escolher a profissão, a situação é a mesma: quase todas as escolhas possíveis têm algumas características fascinantes e algumas outras pouco agradáveis. Isso destrói dois grandes fantasmas:
  • 1- O mito da profissão ideal
  • 2- O mito da escolha errada
A profissão ideal não pode existir, porque hoje somos um pouco diferentes de ontem e as coisas que preferimos já não são as mesmas. Em um dia ensolarado, eu quero ser homem-rã da Marinha, especializado em salvar top models que caem do iate. Em uma noite chuvosa e fria, prefiro estar em casa digitando uma tese científica, com direito a chás e bolinhos. A Medicina é ótima, mas convive sempre com o sofrimento. A Engenharia é muito fascinante, mas depende de uma grande equipe e das condições do mercado. Jornalismo, Direito, Arquitetura, Economia, Administração etc. todas têm grandes prós e alguns contras.
A inexistência da profissão ideal traz, entretanto, uma enorme vantagem: derruba a ideia do fantasma da escolha errada. Pois, posso fazer umas mais acertadas do que outras, levando em conta as minhas características pessoais. Mas não há a escolha completamente errada. Trata-se, na verdade, de uma escolha realista, com áreas de maior interesse para mim.
O primeiro passo seria analisar as condições de trabalho profissões que me parecem interessantes – conversar com profissionais destas áreas e frequentar os seus locais de trabalho para ter bastante informação sobre as características de cada uma delas. É muito parecido, afinal, com a decisão de casar: é indispensável um convívio extenso e intenso, para que o cotidiano desfaça as possíveis e prováveis idealizações que cada um dos dois tenha feito; é preciso conhecer as qualidades e os defeitos para fazer a escolha de modo mais realista possível. O vínculo conjugal ou profissional feito de modo precipitado pode mais tarde ser rompido, mas à custa de muito sofrimento e várias perdas.
A experiência recomenda sempre preferir as chamadas "profissões amplas", como Medicina, Engenharia, Direito, Administração etc. A possibilidade de encontrar áreas atraentes fica muito maior. Por exemplo: a escolha pela Matemática é razoavelmente ampla, mas a escolha pela Engenharia proporciona um campo muito mais amplo para, mais tarde, o profissional fazer as suas escolhas de especialização. Assim também com Direito, o advogado pode atuar em áreas muito diversas, com grande contato com pessoas, ou dentro de escritórios, apenas se relacionando com uma pequena equipe. O mesmo é válido para Jornalismo, Administração, Medicina etc. Optar por uma carreira mais restrita pode ser uma boa escolha, mas o risco de decepção é evidentemente maior.
Até agora estivemos estudando as coisas externas. Mas o item mais importante para a escolha adequada da profissão está dentro de cada um de nós: Em Campos do Jordão, interior de São Paulo, devemos poder aproveitar o cavalo e o forno a lenha, o churrasco, sem estragar o bom com queixas pela falta de frescobol, tanguinhas e sorvetes. Em Ubatuba, curtir a praia, as ondas, o surfe, o mergulho, sem resmungar pela falta da lareira e do chocolate.
O fundamental, então, é ter atingido um bom nível de maturidade emocional. É a liberdade interna de viver bem, com bem-estar individual e social, cumprindo o dever, aproveitando o prazer, livre de inibições e de culpas inadequadas.
Dr. Mauro Moore Madureira é psiquiatra do Einstein
Publicado em maio/2011

Fonte: http://www.einstein.br/Ensino/Noticias/escolhendo-a-profissao.aspx